sexta-feira, 25 de maio de 2012

Artigo - A greve nas universidades federais e a luta pela dignidade da profissão docente

Artigo - A greve nas universidades federais e a luta pela dignidade da profissão docente
Luciano Mendonça de Lima


De resto, todo colapso traz consigo desordem intelectual e moral. É necessário criar homens sóbrios, pacientes, que não se desesperem diante dos piores horrores e não se exaltem em face de qualquer tolice. (Antonio Gramsci, 1891-1937)

Na quinta-feira, 17 de maio de 2012, os professores das Instituições Federais de Ensino Superior entraram em greve por tempo indeterminado. Na raiz do movimento se encontra a profunda insatisfação de parcela significativa da categoria com os rumos da universidade brasileira.

A faceta mais visível deste perverso quadro é o atual processo de expansão das IFES, que nos últimos anos tem aprofundado a precarização do trabalho acadêmica em todas as suas dimensões, expresso no arrocho salarial, na mercantilização do conhecimento e em jornadas laborais que beiram o limite do esgotamento físico, mental e emocional. Essa realidade foi muito bem captada pelo nosso sindicato nacional, o ANDES-SN, que em seu 31° Congresso, realizado na cidade de Manaus-AM, entre os dias 15 e 20 de janeiro de 2012, já apontava para o protagonismo dos docentes na luta por melhores condições de vida e trabalho e na defesa de uma universidade pública, gratuita e de qualidade socialmente referenciada.

Depois de mais um começo de ano em que o processo de negociação de nossa pauta de reivindicações se viu frustrado, em função da postergação e intransigência do governo federal, não nos restou alternativa, a não ser apostar no processo de mobilização da categoria. Assim foi feito, com rodadas nacionais de assembléias que aprovaram majoritariamente a data de 17/05/2012 para o início da greve.

Na UFCG, as três Associações Docentes (ADUFCG, ADUFCG-Patos e ADUC), bem como os docentes dos campi de Cuité, Sousa, Pombal e Sumé, cumpriram à altura com os desafios postos pela conjuntura.  Em todos os campi da UFCG, diferentes atividades de mobilização foram organizadas, culminando com a realização de assembléias no período imediatamente anterior ao da deflagração da greve, a maioria delas com participação massiva dos docentes. Após esse processo de mobilização, os docentes da UFCG, de forma coletiva e democrática, decidiram pela adesão à greve nacional.

Em Campina Grande a greve começou muito bem, apesar de alguns problemas pontuais. Logo na manhã do dia 17/05/2012 foi realizado um ato público na entrada principal da UFCG, com distribuição de um panfleto de esclarecimento à comunidade universitária e à sociedade campinense. Ato contínuo, o Comando Local de Greve foi instalado, para isso contando com a representação de professores de diferentes Unidades Acadêmicas, sob a coordenação de membros da diretoria da ADUFCG.

O ponto alto do primeiro dia de greve ainda estava por vir. É que para aquele mesmo dia havia sido convocada a reunião mensal do Colegiado Pleno, a mais importante instância deliberativa da UFCG, constituída por representantes dos professores, alunos e servidores técnico-administrativos da instituição. Conforme deliberação da assembleia dos docentes da UFCG do dia 15/05, que aprovou, por unanimidade, a deflagração da greve, o Presidente da ADUFCG, Professor Gonzalo A. Rojas, apresentou a proposta de transformar a pauta ordinária da citada reunião em pauta extraordinária da greve. A propositura foi acatada pelo plenário. Após um rico processo de discussão (que, diga-se de passagem, contou com um número expressivo de membros da comunidade universitária), foi aprovada, por unanimidade, uma moção de apoio à greve dos docentes das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES).

Por seu conteúdo e significado, este fato deve se destacado. Embora seja o mais importante órgão de deliberação coletiva da instituição, historicamente o Colegiado Pleno vinha sendo omisso ou resistente aos movimentos reivindicatórios dos segmentos que representa, em função do mesmo sempre ter gravitado sob a órbita de influência das forças que até hoje administram a universidade.

Desta vez o Colegiado Pleno agiu diferente, se mostrando sensível à movimentação democrática dos diferentes segmentos da comunidade universitária, pois não só apoiou e reconheceu a justeza da pauta de reivindicações dos docentes como também repudiou qualquer forma de coerção ao legítimo e inalienável direito de greve dos servidores públicos, aí inclusos os professores. Também, na perspectiva de tranquilizar a comunidade discente, aprovou a suspensão do calendário escolar, tornando assim ilegal qualquer atividade acadêmica, por ventura, desenvolvida durante o período da greve.

A reação a essa decisão não se fez demorar. Já no dia seguinte, conhecidos e conservadores setores da UFCG, mesmo que travestidos do discurso da meritocracia, não só tentaram “furar” a greve (desrespeitando uma decisão coletiva da categoria da qual formalmente fazem parte), como buscaram desqualificar a decisão daquele que é o órgão responsável por traçar a política geral da UFCG. Este fato bem demonstra o caráter reacionário dessa gente mal acostumada com a democracia, que só respeita decisão coletiva quando é conveniente aos seus interesses particulares, que se acha superior até mesmo ao Colegiado Pleno da instituição. A atitude dessa minoria conservadora e egocêntrica deve ser repudiada pelas forças democráticas da UFCG, pois não contribui para a construção de uma universidade e de uma sociedade justa, solidária, democrática e libertária, mas para a lembrança dos tempos sombrios de terror e de autoritarismo em nosso país.

Se a nossa greve já tinha legitimidade mais do que suficiente para ser deflagrada, tendo em vista o descaso com que os docentes federais vêm sendo tratadas pelos últimos governos, a decisão do Colegiado Pleno reforçou ainda mais essa tendência, dando um exemplo de maturidade política que já repercute em todo o país.

Daqui por diante resta intensificar a mobilização interna entre a categoria e ampliar o apoio da sociedade civil para que assim possamos dobrar a arrogância do governo e seus aliados e assim lograr a conquista dos nossos direitos e da nossa dignidade profissional.


Luciano Mendonça de Lima é Professor da UAHis, representante docente do CH no Colegiado Pleno/UFCG e membro do Comando Local de Greve/ADUFCG

Fonte: http://www.ufcg.edu.br/prt_ufcg/assessoria_imprensa/mostra_noticia.php?codigo=13681

Postado por:
Meryglaucia Silva Azevedo
Graduanda do 7° Período em Pedagogia-UFCG
Bolsista do Programa de Educação Tutorial-PET
 

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Antonio Gramsci

Todo Estado é uma ditadura.